Agosto 20, 1999
Sexta-feira, 11 horas da noite,
o fim de semana mal começou,
os bares, cafés e boates, já estão a pinha.
Mil e uma caras se vê,
muitas conhecias, outras nem por isso,
por entre o fumo já em demasia,
que estonteava qualquer um,
silhuetas apenas se viam, imagens distorcidas.
O calor invadia o ambiente,
lá fora uma noite quente abafada,
mas foi lá dentro no meio de…
De tanto fumo, de mil e uma conversas cruzadas,
onde já ninguém sequer ouvia o que dizia,
que um brilho especial vislumbrei,
os olhos de uma bela dama olhavam-me fixamente,
retribui de igual modo, não que me sentisse capaz de o fazer,
mas porque era incapaz de ignorar tamanha beleza.
Com um simples gesto,
um convite para mudar de ares surgiu,
lá fora no varandim, a sua beleza era ainda mais estonteante,
seus cabelos negros vogavam ao sabor de uma repentina brisa.
Calmamente me aproximei, de novo o olhar se cruzou.
Seus olhos negros, profundos, um brilho constante emitiam.
Foram breves as apresentações,
não havia necessidade,
parecia-me já ser uma conhecida de longa data.
Inesquecível foi o toque aveludado de seus lábios, na minha face,
deixando-me demasiado extasiado para lhe resistir,
ainda que nem por um segundo pensasse nisso.
Era possuidora de um corpo elegante e sensual,
uma voz calma e terna, uma face bela e jovem mas…
Optamos por beber algo num local mais recatado,
A sua casa, o lugar mais indicado naquela noite,
assim chegados não deixei de notar no ambiente calmo que pairava,
uma casa um tanto ao quanto oca,
paredes brancas despidas de quadros e adornos,
mobília moderna e simplista,
numa das extremidades uma ampla porta de vidro,
deixava vislumbrar lá fora um mar imenso.
Ela ausentou-se, iria buscar algo para bebermos,
lá fora o mar reflectia um luar magnifico,
no momento em que toda a casa foi engolida por uma escuridão imensa,
apenas alumiada pelo brilhante luar, que penetrava através da porta de vidro.
Confrontámos-nos ali sós,
a bela dama aproximou-se,
trazia agora um vestido negro,
que magicamente ia reluzindo a medida que se ia aproximando .
Parou antes mesmo que lhe pudesse ver a face sob a luz do luar.
Proferiu – Aproxima-te de mim…
Olhei fixamente para a silhueta,
fique sem saber o que fazer estava inerte,
completamente desorientado.
Ouvi de novo – Aproxima-te, não tenhas medo…
Engoli em seco, e sem proferir qualquer espécie de palavra,
anui, afirmativamente com a cabeça,
dei o primeiro passo, tremulo,
quando vi o belo vestido , cair sensualmente pelo seu corpo.
Deixando a descoberto um corpo nu,
de beleza e perfeição irreal,
antes mesmo que pudesse reagir,
encostou seu corpo ao meu e um longo e apaixonado beijo surgiu.
Na hora que se seguiu, foi belo o momento,
paixão ardente, como se nunca tivesse amado,
até que seu corpo nos meus braços adormeceu.
De seguida também eu, perante aquela real irrealidade, num sono profundo caí…
Acordei ao som da rebentação do mar áspero daquela manhã,
um longo arrepio percorreu-me a espinha,
era da aragem fria que penetrava na casa,
pela grande porta de vidro agora entreaberta.
Mas estava só….
Teria eu sonhado, mas não, eu estava ali.
Vesti as minhas roupas rapidamente, onde estava ela?
Fiquei na incerteza de devia chamar por ela ou não,
estaria eu a dar em louco? Teria bebido demais?
Preparava-me para gritar pelo seu nome,
quando a brisa marítima fez esvoaçar um pequeno papel.
Uma letra trémula, manchada, talvez por uma lágrima não contida,
dizia apenas – Obrigada por tudo, não esquecerei esta noite.
Apressei-me a sair dali!
Durante algumas semanas não fui capaz de aquela noite esquecer.
Só uns tempos mais tarde lá voltei,
vi crianças cá fora a brincar no jardim da casa,
Logo pensei, que fui eu fazer, ela é casada!
Uma senhora que arranjava um canteiro,
na minha presença não deixou de reparar e inquiriu-me o que fazia ali.
Não me contive e perguntei-lhe se conhecia tal dama.
-Ahh, era amigo é, a menina foi para fora do país, compramos a casa vai para duas semanas, acho que ela nem aqui vivia era apenas a casa de férias.
Ao mesmo tempo que senti um enorme alivio, senti um enorme vazio.
Observei a casa pela ultima vez,
numa pequena janela lá em cima no sótão,
uma silhueta, não deve ser imaginação minha.
Virei costas e não mais esqueci aquela noite quente...



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